quinta-feira, 1 de abril de 2010

Terceiro

Só me lembro de a ver deitada de pernas abertas. Amarrada a uma maca com uma luz forte pendente do tecto, um tanto ou quanto alheia à situação que se passava debaixo do seu feixe.
Lembro-me dos seus gritos lancinantes e de ver as veias no seu pescoço dilatadas. Muito dilatadas. «Vão rebentar», era o que pensava.
As veias dilatadas no seu pescoço, na verdade, acabavam por não ser mais do que um mero pormenor. Tudo naquela mulher estava dilatado. Lembro-me das suas pupilas que me pareceram estranhamente carregadas de substâncias psicotrópicas. Lembro-me dos olhos, esses! (...) Que pareciam saltar mais das órbitas a cada instante que passava, esses! (...) Esses que acabaram por a levar mesmo para outra órbita, mas isso explicarei mais tarde.
Sim, aqueles enormes olhos vermelhos que outrora haviam sido cinzentos, contrastando com o seu lustroso cabelo preto.
Mas mais do que disso tudo, mais do que das mãos inchadas; ou dilatadas, talvez fique melhor; mais do que disso, lembro-me da barriga gigante que carregava o maior mal daquela mulher. Enorme. Redonda. Dilatada.
O resto foi rápido e vago. Um grito mais forte, um espasmo, um micro-segundo de silêncio que talvez na altura até tenha parecido uma eternidade, um corpo a desfalecer na maca fria daquela sala, um último esgar e um fio de sangue que escorreu do seu olho esquerdo. Um rio de sangue, a boa verdade. Uma veia rebentada talvez; ou um cérebro demasiado quente a desfazer-se em papas. Não interessa, um rio a anunciar um fim. Ou talvez um começo.
Recordo-me da cri
atura vestida de branco que espetou um objecto afiado na barriga da mulher, com a maior naturalidade do Universo. «Para ela já é habitual fazê-lo...», foi o que pensei.
Não sei. Não sei de nada. Só sei que talvez me recorde de ouvir um choro ao longe, dentro daquela barriga. O pequeno gorgolejar de quem se afoga na própria desgraça. Talvez.

Joan

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